O cenário de eventos de inovação e negócios no Brasil para o ciclo 2025-2026 revela uma mudança de paradigma. Se em anos anteriores as conferências tratavam a blockchain, a Web3 e os criptoativos como tendências futuristas e especulativas, a agenda atual demonstra que essas tecnologias se tornaram a infraestrutura silenciosa da economia real. De Ribeirão Preto ao Rio de Janeiro, a descentralização deixou de ser um tema de nicho para se tornar o alicerce de discussões sobre rastreabilidade no agronegócio, integridade em apostas esportivas e a nova arquitetura do sistema financeiro nacional com o Drex. Este artigo explora como os principais encontros do país estão abordando essa transformação tecnológica.
A Nova Arquitetura Financeira e a Economia Tokenizada
O setor financeiro continua sendo o principal motor de adoção tecnológica no país, e eventos como o Fintouch e a FEBRABAN Tech funcionam como os laboratórios onde o futuro do dinheiro é desenhado.
O Fintouch, organizado pela ABFintechs e programado para junho de 2026 em São Paulo, posiciona-se como o hub técnico e regulatório do ecossistema. Diferente de feiras generalistas, este encontro atrai desenvolvedores e reguladores para discutir a estrutura do sistema. A tecnologia blockchain aparece aqui não como especulação, mas como a base para a Liquidação Atômica (DvP) e a programabilidade do dinheiro. As discussões centrais giram em torno da implementação do Drex (Real Digital) e de como soluções de ledger distribuído podem conectar sistemas bancários legados a novas redes permissionadas, permitindo transações instantâneas e contratos inteligentes que automatizam fluxos de pagamento complexos.
Já o FEBRABAN Tech, o gigante da tecnologia bancária que ocorre tradicionalmente no segundo semestre, foca na escala industrial dessas soluções. O evento aborda como grandes instituições financeiras estão integrando blockchain para garantir a privacidade e a segurança em transações interbancárias massivas. A tecnologia é discutida sob a ótica da resiliência cibernética e do uso de provas de conhecimento zero (Zero-Knowledge Proofs), permitindo que bancos compartilhem informações vitais sem expor dados sensíveis de seus clientes, em total conformidade com a LGPD e as novas diretrizes do Banco Central.
Complementando o cenário financeiro, a Money Week, realizada em Balneário Camboriú, e o Smart Summit, no Rio de Janeiro, traduzem essa infraestrutura complexa para o investidor final. A Money Week foca na macroeconomia e na alocação de ativos, tratando as criptomoedas como uma classe de investimento madura e discutindo a regulamentação de ETFs. Por outro lado, o Smart Summit, em parceria com iniciativas como o Digital Assets Forum, aprofunda-se na tokenização de ativos reais (RWA), explorando como a blockchain permite fracionar e democratizar o acesso a investimentos imobiliários e recebíveis, criando novos mercados de capitais mais líquidos e acessíveis.
O Corredor de Inovação: Rio e São Paulo
A rivalidade produtiva entre Rio e São Paulo impulsionou a criação de plataformas de eventos massivos que misturam entretenimento, networking corporativo e deep tech.
O Web Summit Rio, que retorna ao Riocentro em junho de 2026, consolidou-se como o ponto de encontro global da tecnologia na América Latina. O evento mantém uma trilha dedicada, frequentemente chamada de “Cryptopia”, que eleva o debate para questões geopolíticas e institucionais. A blockchain é analisada sob a perspectiva da soberania digital e da custódia institucional, com painéis que reúnem reguladores e grandes players globais para debater a interoperabilidade entre diferentes cadeias e o conceito de “Code is Law” frente às jurisdições estatais. É o palco onde se discute o futuro das reservas estratégicas de Bitcoin e a infraestrutura necessária para suportar a economia global descentralizada.
Expandindo a marca de sucesso carioca, a São Paulo Innovation Week (SPIW) estreia em maio de 2026 no Pacaembu, trazendo uma abordagem focada no “Hard Business” característico da capital paulista. O evento promete adaptar o formato de festival para atender às demandas da indústria e do setor corporativo de São Paulo. A tecnologia blockchain deve permear as trilhas de eficiência operacional e transformação digital, focando em aplicações B2B, identidade digital corporativa e soluções de transparência para grandes cadeias de valor.
Enquanto isso, a Rio Innovation Week, agendada para agosto de 2026, mantém seu perfil de megafestival de experiências. Com palcos dedicados à criptoeconomia, o evento explora a intersecção entre Web3 e a economia criativa. A blockchain é apresentada como uma ferramenta de empoderamento para criadores, facilitando a gestão de direitos autorais através de NFTs e criando novos modelos de engajamento comunitário onde a posse de ativos digitais desbloqueia experiências físicas e virtuais exclusivas.
O Ecossistema de Startups e a Prática em Florianópolis
Em Florianópolis, o Startup Summit (agosto de 2026) consolida-se como o ponto de encontro de quem constrói a tecnologia na prática. Diferente de eventos focados apenas em pitchs de investimento, a pauta técnica ganha força com painéis dedicados à infraestrutura descentralizada, reunindo especialistas de fundações globais, como a Solana Foundation, para discutir a reprogramação do sistema financeiro. O evento serve de vitrine para aplicações reais: é onde greentechs demonstram como a blockchain certifica a logística reversa de resíduos, transformando a reciclagem em créditos ambientais auditáveis (NFTs). Para o empreendedor, o Startup Summit é o local para entender como a Web3 deixa de ser apenas especulação para se integrar a modelos de negócio escaláveis (SaaS e B2B), atraindo tanto desenvolvedores hardcore quanto fundos de Venture Capital em busca da próxima tese de infraestrutura.
Criatividade, Comportamento e Marketing Digital
Além dos grandes hubs de infraestrutura, o calendário brasileiro brilha em eventos focados na camada humana e criativa da tecnologia, onde a Web3 deixa de ser código para virar cultura e mercado.
Na Serra Gaúcha, o Gramado Summit, que ocorre em maio, destaca-se por abordar a inovação sob a ótica comportamental. O evento foge do tecnicismo frio para discutir como a tecnologia impacta a vida humana. A blockchain é inserida nas pautas através das startups que competem na batalha de investimentos, sendo apresentada como uma ferramenta de democratização do acesso ao capital e de governança comunitária. As discussões focam em como modelos descentralizados podem criar relações de trabalho mais justas na gig economy e como a transparência dos dados pode reconstruir a confiança entre marcas e consumidores.
Já o Rio2C, realizado na Cidade das Artes, posiciona a tecnologia como a espinha dorsal da “Creator Economy”. O evento disseca o uso da blockchain para a gestão de Propriedade Intelectual em um mundo saturado de conteúdo gerado por IA. Nos palcos dedicados à música e ao audiovisual, a tecnologia é debatida como a solução definitiva para o rastreamento de royalties e direitos autorais. O foco recai sobre contratos inteligentes que automatizam a distribuição de receitas, garantindo que artistas, roteiristas e desenvolvedores de games sejam remunerados instantaneamente e de forma justa pelo consumo de suas obras em plataformas digitais.
Fechando a tríade de comunicação e mercado, o Digitalks Expo em São Paulo traduz a Web3 para a linguagem do marketing de performance e da economia da atenção. Para os profissionais de marketing digital, a discussão evoluiu do hype do metaverso para a utilidade prática dos programas de fidelidade tokenizados. O evento explora como carteiras digitais estão se tornando os novos “cookies” para segmentação de audiência e como grandes marcas estão utilizando NFTs não apenas como colecionáveis, mas como chaves de acesso para experiências “phygital” exclusivas, criando comunidades de marca altamente engajadas e com alto valor de retenção.
Agronegócio e Comércio Digital: Verticais de Escala
No Brasil, a tecnologia precisa funcionar no campo e no varejo para ter relevância real, e eventos como a Agrishow e o VTEX Day demonstram exatamente essa aplicação pragmática.
A Agrishow, realizada em Ribeirão Preto entre abril e maio, é a maior vitrine de tecnologia agrícola do hemisfério sul. Longe do hype, a blockchain no agronegócio é uma ferramenta de sobrevivência comercial e compliance. No espaço Agrishow Labs, startups apresentam soluções de rastreabilidade imutável essenciais para atender às exigentes regulações ambientais europeias (EUDR). O registro em blockchain cria um passaporte digital para a soja e a carne, provando que a produção não provém de áreas desmatadas. Além disso, a tecnologia facilita a emissão de CPRs Digitais (Cédulas de Produto Rural), tokenizando a safra futura para garantir financiamento mais rápido e barato.
No varejo digital, o VTEX Day em São Paulo discute o conceito de comércio “Composable”. A blockchain entra como uma peça modular nessa arquitetura, permitindo que grandes varejistas integrem pagamentos com criptoativos e programas de fidelidade baseados em Web3 sem precisarem reestruturar todo o seu sistema legado. A discussão foca na redução do custo total de propriedade e na criação de comunidades de marca onde os tokens servem como moeda de troca e engajamento, transformando consumidores em embaixadores da marca.
Cidades Inteligentes e Infraestrutura Conectada
A gestão urbana e a conectividade são temas onde a descentralização oferece soluções para problemas críticos de privacidade e segurança.
A Smart City Expo Curitiba, que acontece em março de 2026 na Ligga Arena, coloca o Brasil no mapa global das cidades inteligentes. O evento explora o uso de blockchain para a criação de Espaços de Dados de Mobilidade, uma aplicação sofisticada que permite a empresas privadas e governos compartilharem dados de tráfego e transporte sem comprometer segredos industriais ou a privacidade dos cidadãos. A tecnologia garante a governança desses dados, registrando quem acessou o quê e para qual finalidade, viabilizando uma gestão de trânsito mais eficiente e colaborativa.
Já o Futurecom, focado na infraestrutura de telecomunicações, aborda a blockchain como uma camada de segurança para a Internet das Coisas (IoT). Com a expansão do 5G e a chegada do 6G, o evento discute o uso de Identidade Digital Descentralizada (DID) para autenticar bilhões de dispositivos conectados. Isso elimina a necessidade de servidores centrais de autenticação, que são pontos únicos de falha, e aumenta a resiliência das redes contra ataques distribuídos (DDoS), garantindo que a infraestrutura crítica do país permaneça operante mesmo sob estresse.
Ecossistemas Regionais, Direito e Nichos Estratégicos
Eventos regionais e setoriais completam o panorama, mostrando a capilaridade da tecnologia.
O South Summit Brazil, em Porto Alegre, foca no ecossistema de Deep Tech e Venture Capital. A blockchain é debatida ali como uma fronteira de investimento, com fundos buscando infraestrutura robusta e startups que resolvam problemas reais de escalabilidade e interoperabilidade, fugindo das soluções superficiais.
No setor jurídico, a Fenalaw examina a validade legal dessa nova realidade. O evento discute a “prova digital” e como registros em blockchain estão sendo aceitos pelos tribunais brasileiros como evidência de anterioridade e integridade de documentos. Além disso, o conceito de Smart Contracts é dissecado para entender como a autoexecutoriedade desses códigos convive com o direito contratual tradicional.
Já o SBC Summit Rio aborda um setor em explosão: as apostas esportivas. Com a regulamentação recente, a integridade tornou-se a palavra de ordem. A blockchain é apresentada como a solução ideal para registrar apostas de forma imutável, garantindo transparência para o regulador e confiança para o apostador, além de fornecer os trilhos de pagamento híbridos (fiat/cripto) necessários para a operação internacional das casas de apostas.
O Ano da Convergência e da Maturidade
A análise transversal do calendário de eventos de 2026 confirma uma tese central: a fase de especulação ruidosa deu lugar à integração silenciosa e estrutural. O que observamos neste ciclo não é mais a blockchain buscando desesperadamente por um problema para resolver, mas sim indústrias inteiras — do campo à Faria Lima, da gestão de resíduos em Florianópolis à economia criativa no Rio — adotando a descentralização como a camada lógica de seus negócios. A tecnologia tornou-se “invisível”, dissolvendo-se no backend das operações para garantir que a soja seja rastreável, que o real digital seja programável e que a propriedade intelectual seja respeitada.
Para o executivo, o investidor ou o empreendedor, o roteiro de eventos deste ano exige um olhar multidisciplinar. Já não é possível entender o futuro das finanças apenas frequentando congressos bancários, nem compreender a revolução do varejo limitando-se a feiras de e-commerce. A inovação que nasce na Agrishow sob a forma de CPRs digitais dialoga diretamente com a infraestrutura de liquidez debatida no Fintouch; a governança de dados urbanos da Smart City Expo cria os precedentes para a identidade digital que será crucial no Futurecom. As fronteiras se apagaram.Em última análise, 2026 marca o momento em que o Brasil deixa de ser apenas um consumidor de tendências globais para se posicionar como um laboratório de escala real para a economia tokenizada. A diversidade e a capilaridade dos eventos nacionais mostram um mercado maduro, onde a regulação e a inovação caminham, ainda que com atritos, na mesma direção. Participar destes encontros deixa de ser uma opção de networking para se tornar uma necessidade estratégica de sobrevivência: quem não compreender a nova “encanamento” digital que conecta esses setores corre o risco de operar em um sistema operacional obsoleto.