Quando se é uma empresa, pensar em expandir suas operações para diferentes países pode ser um desafio e tanto. É necessário entender, de forma profunda, as diferenças culturais, políticas, sociais e de consumo que formam aquela sociedade. E também compreender como as pessoas se relacionam com as empresas e qual é o tipo de compromisso que cobram das mesmas. Para os latino-americanos, o investimento em impacto social é um fator importante para gerar identificação, proximidade, e uma imagem positiva.
De acordo com os últimos dados públicos compilados pela CEPAL, em 2024, os investimentos estrangeiros na América Latina somaram cerca de US$ 188,96 bilhões. A região segue como um importante foco de expansão para companhias internacionais. Porém, com diferentes empresas mirando o mesmo mercado, como se destacar? Nesse contexto, o impacto social passa a ser uma estratégia de negócios e uma vantagem competitiva.
Como os latino-americanos avaliam o impacto social nas empresas
Há uma expectativa crescente de que as marcas atuem de forma ativa no respeito às pessoas, na proteção do meio ambiente e na geração de impacto positivo nas comunidades onde operam.
Os dados confirmam claramente esse olhar. De acordo com a Pesquisa de Responsabilidade Social Corporativa (RSC) 2024 da Sherlock Communications, o investimento em impacto social das empresas desempenha um papel decisivo na construção da percepção de marca em toda a região: 81% dos consumidores latino-americanos afirmam que as ações de responsabilidade social influenciam sua opinião sobre as empresas. Quando questionados sobre como as empresas podem gerar impacto positivo, 59% apontaram cadeias de produção ambientalmente responsáveis como o fator mais importante. Além disso, 77% disseram que não recomendam empresas que não atuam de forma socialmente responsável, e 72% afirmaram que só compram produtos ou contratam serviços de empresas que demonstram responsabilidade social.
Além disso, um outro estudo da Kantar (2025) apontou que 50% dos consumidores brasileiros reduziram ou deixaram de comprar produtos de marcas associadas a impactos sociais ou ambientais negativos, evidenciando o peso dos valores nas decisões de consumo.
Nesse contexto, a reputação tornou-se um ativo estratégico para os negócios. O estudo Corporate Reputation and Communication: The Most Relevant Intangibles for Business (2025) identifica a reputação corporativa como o ativo intangível mais relevante para as empresas, com destaque especial para sua importância na América Latina.
Diante desse cenário, atuar com responsabilidade, consistência e impacto social genuíno é fundamental para construir confiança, relevância e sustentabilidade dos negócios no longo prazo na região – em especial quando se está buscando consolidação em um mercado em que a empresa ainda não tem reconhecimento de marca.
Impacto social como estratégia de negócios: como criar valor real
A partir do momento em que as empresas entendem o investimento em impacto social como parte relevante da estratégia de expansão e de conexão com novos públicos, elas já saem na frente. No entanto, é fundamental saber como estruturar essas iniciativas de forma coerente. Caso contrário, elas podem gerar efeitos contrários aos esperados.
O primeiro passo é identificar causas diretamente relacionadas aos impactos que a empresa já gera por meio de suas operações. Por exemplo, dificilmente faz sentido que uma empresa de tecnologia desenvolva um projeto com uma ONG de proteção animal apenas porque o CEO gosta de cachorros. Por outro lado, é muito mais coerente — e estratégico — investir em programas de formação e capacitação de jovens periféricos para atuar no mercado de tecnologia.
Quando a atuação social está alinhada ao core do negócio, a empresa constrói um impacto social mais legítimo, relevante e sustentável. Esse alinhamento fortalece a credibilidade da iniciativa, gera valor real para a sociedade e também contribui para resultados concretos em reputação, engajamento e crescimento do negócio.
Ao mesmo tempo, ONGs locais e lideranças sociais vêm defendendo parcerias mais profundas e autênticas, que vão além de ações pontuais e gerem impacto real e duradouro.
Os relatos coletados na pesquisa da Sherlock Communications revelaram frustrações relevantes: 79% observaram que algumas empresas ainda realizam ações que não geram impacto de longo prazo nas comunidades, e a mesma proporção destacou que as empresas frequentemente não se envolvem de forma suficientemente próxima com projetos locais para compreender de fato suas necessidades.
Diante desse cenário, o segundo ponto fundamental é atuar de forma próxima e colaborativa com as comunidades que se deseja apoiar. Ao abrir espaço para a escuta ativa e compreender quais são suas principais demandas – sem chegar com soluções prontas – as empresas conseguem estruturar iniciativas mais relevantes, legítimas e capazes de gerar um impacto social ainda mais significativo.
Por fim, para definir a estratégia adequada e identificar os stakeholders certos, é fundamental contar com profissionais especializados em impacto social que estejam baseados na América Latina e atuem diretamente no território. São esses profissionais que conhecem de perto as dinâmicas locais, os contextos sociais e culturais e os desafios reais das comunidades. Com esse suporte especializado, torna-se possível integrar a estratégia com muito mais precisão em toda a abordagem 360º da campanha de comunicação, minimizando riscos e potenciais reações negativas.
Cases de sucesso: impacto social com resultados concretos
Em 2024, a Sherlock Communications desenvolveu uma parceria com a Betfair, plataforma internacional de apostas esportivas, para a execução do segundo ano do projeto Esporte Futuro, voltado ao desenvolvimento do esporte de base no Brasil. A partir da sinergia entre o posicionamento da marca e ONGs que utilizam o esporte como ferramenta de inclusão social, conectamos a Betfair a seis organizações localizadas em São Paulo, Rio de Janeiro e Fortaleza, que receberam doações de GBP 10 mil cada.
Além do impacto direto gerado pelo investimento financeiro, o projeto também buscou promover interação humana e inspiração. Para isso, levamos três atletas olímpicos que participaram dos Jogos de Paris para dialogar com as ONGs: Caio Bonfim (medalhista de prata na marcha atlética), Ana Sátila (finalista nas provas de canoagem slalom K1 e C1) e Edival Pontes “Netinho” (medalhista de bronze no taekwondo).
O resultado? Cerca de 4 mil pessoas foram impactadas positivamente, de forma direta e indireta. No Abraço Campeão (RJ), uma das ONGs participantes, houve um aumento de 46% no número de beneficiários, alcançando 270 novas crianças e adolescentes. Já o Instituto Esporte Mais (CE), outra ONG parte do projeto, registrou um crescimento de 75% no número de beneficiários, garantindo a sustentabilidade e a expansão de suas atividades.
Outro exemplo foi a campanha desenvolvida para a ManageEngine, em parceria com a ONG Mais Meninas na Tecnologia. Desde o início, identificamos que atuar na intersecção entre tecnologia e gênero seria uma escolha estratégica, tanto pela presença de mulheres em posições de liderança na empresa quanto pelo fato de o setor de tecnologia ainda ser majoritariamente masculino. Em diálogo com a ONG, buscamos compreender as principais dores e necessidades do projeto e, a partir disso, construímos uma solução conjunta: o desenvolvimento de um workshop de introdução à inteligência artificial, no qual 16 meninas, de 9 a 16 anos, aprenderam a utilizar IA e a criar seus próprios chatbots.
Ao conectar quem podia ensinar com quem queria aprender, o projeto gerou um impacto imediato e real. Além do conteúdo técnico, as participantes — vindas de contextos de profunda desigualdade socioeconômica — também tiveram a oportunidade de passar um dia em uma grande empresa de tecnologia, ampliando repertórios e visualizando, na prática, que esse futuro é possível.
Esses exemplos mostram que o impacto social para empresas na América Latina gera resultados mais consistentes quando é estruturado a partir da escuta, da coerência com o negócio e da atuação direta nos territórios. Ao conectar marcas a causas legítimas, organizações locais e comunidades reais, é possível criar impacto social verdadeiro, ao mesmo tempo em que se fortalece a reputação, a relevância e a conexão das empresas com a sociedade.