Refúgio na América Latina: os impactos e o poder da música na luta por visibilidade

A crise do refúgio na América Latina é marcada por ondas sucessivas, sendo influenciada por momentos críticos, como a crise humanitária na Venezuela, que aumentou os índices de deslocamento forçado. 

Dos quase 22 milhões de pessoas em deslocamento forçado na América Latina, segundo o ACNUR, encontram-se em sua maioria, venezuelanos, equatorianos, colombianos e haitianos, dentre outras nacionalidades.

As causas englobam fatores sociais, econômicos e políticos, como conflitos armados no território, insegurança, violência e perseguições por crenças pessoais. Além disso, há o deslocamento forçado por desastres climáticos que ganhou força nos últimos anos.

Impactos sociais e econômicos do refúgio

O deslocamento forçado é muitas vezes mal compreendido pela população do país que a recebe e isso gera grandes desafios e impactos sociais para a vivência de quem já passou por grandes dificuldades até chegar em um lugar seguro. 

Ao deixarem suas vidas para trás, pessoas em situação de refúgio não levam consigo documentos ou objetos pessoais. Dessa forma, o acesso à serviços sociais, de saúde ou até mesmo relacionados à documentação, se torna ainda mais complexo. Mesmo no caso de imigrantes, que costumam portar seus documentos pessoais, o acesso à serviços básicos ainda é difícil e restrito.

Para além dos desafios pessoais, há uma questão comunitária: como integrar pessoas de diferentes culturas, com diferentes vivências e experiências em um mesmo espaço? Daí surge a necessidade de políticas públicas e o papel de atores governamentais atuando em parceria com a sociedade civil. 

O ACNUR, Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados, é a principal instituição de defesa pelos direitos dos refugiados, atuando na proteção bem como no processo de integração social.

O acolhimento gerado pela crise do refúgio especialmente na América Latina, é considerado  referência global, mesmo que ainda enfrente desafios práticos. A Agência da ONU trabalha por soluções à longo prazo para vencer as barreiras que essa população enfrenta. 

Contudo, não cabe à instituição trabalhar sózinha e para tornar as estratégias de acolhimento à nível local possíveis, contam com centenas de parceiros como instituições governamentais e da sociedade civil, além de empresas privadas, fortalecendo a inclusão dessas pessoas em suas novas comunidades.

Assim, as políticas de integração precisam perpassar por todos os âmbitos, criando oportunidades para que essas pessoas possam estudar, acessar o mercado de trabalho com dignidade, aprender o novo idioma e até mesmo criar seu próprio negócio. A solidariedade internacional também importa, para que a causa receba apoio, visibilidade e recursos financeiros.

Para mitigar parte desse desafio, existem iniciativas com o propósito de mobilizar o setor privado na inclusão laboral. No Brasil, por exemplo, existe o programa Empresas com Refugiados em parceria com o Pacto Global da ONU, que conecta empresas e talentos refugiados, mobilizando a inserção no mercado de trabalho e oferecendo suporte até mesmo na qualificação dos candidatos.

Fronteiras que vão além do território: cultura e identidade

É importante lembrar que as fronteiras vão além de linhas geográficas, englobando barreiras sociais e culturais. As pessoas que chegam em um novo país passam por dificuldades que os excluem da construção de identidade e pertencimento. Pessoas em situação de refúgio não chegam sem cultura, mas sim com suas próprias crenças, gostos, idiomas, religiões e trajetórias. 

Por conta de suas vivências pessoais, o processo de integração precisa considerar múltiplos aspectos para ser sustentável, criando um modelo de interculturalidade, onde o respeito à diversidade é o guia principal.  

Com isso, a cultura se torna uma ferramenta importante para humanizar e aproximar a sociedade de tais realidades, a partir de produções culturais dentro das artes, gastronomia, literatura e música, por exemplo.

Cultura, música e redes sociais como ferramentas de visibilidade

O acolhimento cultural é extremamente relevante para o processo de pertencimento. A partir das redes sociais, é possível se conectar com diferentes ideias. É na representatividade que se constrói o pertencimento, quando artistas e pessoas influentes utilizam canais de comunicação para dar visibilidade a uma causa. 

A música é uma grande referência nesse sentido, atuando como ferramenta social. Os artistas utilizam suas vozes para ocupar espaços digitais, para dar visibilidade às causas sociais, mobilizando temas de seu interesse.

Artistas latinos engajados como Residente, Calle 13, Bad Bunny, Karol G e Emicida, por exemplo, se manifestam por meio de suas músicas e redes sociais, abordando temas como refúgio, migração, identidade e direitos humanos.

Esse posicionamento gera tensões nas narrativas e alcança novas audiências, mesmo que contrárias às opiniões. Um exemplo disso foram as manifestações contra o ICE, órgão do governo estadounidense de remoções e deportações migratórias, que vem sendo criticada pelas ações de forte repressão e violência. No próprio Grammy, uma grande premiação musical, cantores como Bad Bunny, Billie Elish e Olivia Dean, neta de migrantes, se manifestaram sobre o tema em seus discursos. 

Há alguns anos, Bad Bunny, cantor de reggaeton porto riquenho, aborda em suas músicas, redes sociais e eventos que participa, sobre o combate à repressão migratória e atua em prol da visibilidade de comunidades marginalizadas. 

Além de citar em seu discurso no Grammy que “imigrantes são humanos e merecem respeito”, realizou uma performance no início de fevereiro de 2026, no Super Bowl, maior evento de futebol americano do mundo, onde destacou elementos sociais e políticos característicos latinos para passar uma mensagem: a América é composta por dezenas de países e todas as vidas importam, fomentando um discurso de união em meio ao contexto político de tensões sobre imigração. 

O cantor reforçou mensagens relacionadas à sua identidade e à defesa dos direitos humanos, além de apresentar Porto Rico e toda a sua cultura para o mundo, ilha pertencente aos Estados Unidos que ainda sofre com questões da colonialidade, como a ocupação norte-americana e a falta de pertencimento ao território.

Por que falar de refúgio é falar de futuro e responsabilidade coletiva

O refúgio é um fenômeno contínuo em nossa sociedade, e considerando suas motivações na América Latina, não indicam uma trégua em breve. Pelo contrário, os números de pessoas em deslocamento forçado apenas aumentam, frente aos novos desafios que surgem.

É preciso falar sobre o tema, sem deixar esse papel somente para pessoas que se encontram nessa situação. A informação se torna a chave para despertar empatia e demonstrar que essas pessoas só buscam por um lugar seguro e por condições dignas de vida, assim como todos os seres humanos. 

O engajamento pode acontecer de várias formas e você pode fazer parte disso, de diferentes formas. O envolvimento deve ser a nível pessoal, um alerta para empresas e em parceria com ONGs e organizações governamentais. Somente a atuação nos três setores permitirá que as relações se tornem naturais e que essas pessoas se sintam de fato acolhidas neste novo cenário. 

Cenário sobre as condições de refúgio na América Latina

Sem dúvidas, a cultura e seus mecanismos são ferramentas poderosas para promover a integração de forma sustentável em comunidade, ultrapassando as fronteiras que vão além de territórios. 

É nesse cenário que os artistas manifestam suas opiniões em espaços públicos e de grande visibilidade, onde ao defender suas culturas, histórias e causas, apresentam suas visões políticas e sociais.

Por outro lado, a visibilidade para a causa também deve vir em uma escala menor, a partir de nós mesmos. É preciso dar voz para aqueles que não ocupam esses espaços e mais que isso, compreender o cenário complexo que enfrentam diariamente. 

Para apoiar a causa, você também pode agir: comprar de empreendedores migrantes, ouvir artistas independentes, seguir pessoas que falam sobre o tema nas redes sociais, acompanhar e doar para organizações sociais de acolhimento são ações simples que podem fazer parte do seu dia a dia. É preciso ouvir antes de falar, só assim será possível refletir e respeitar diferentes perspectivas.

Apesar de ser algo contínuo, a crise migratória na América Latina poderá alcançar um cenário melhor se entendermos que é no diferente que aprendemos, criamos e construímos. A interculturalidade precisa acontecer em um mundo globalizado, mas ela precisa ser baseada na paz, na escuta e no respeito.