Durante muito tempo, o 12 de Outubro foi apresentado em diferentes países latino-americanos como uma celebração da chegada de Cristóvão Colombo às Américas, em 1492. A expressão “Dia da Raça” se consolidou em parte da região, mas passou a ser questionada por reduzir um processo histórico complexo a uma narrativa centrada na chegada europeia. Nas últimas décadas, alguns países alteraram oficialmente o nome e o sentido da data. As escolhas, porém, não foram iguais nem ocorreram ao mesmo tempo: cada uma reflete debates e prioridades de seu próprio contexto político e social.
Na Argentina, a data passou a se chamar “Día del Respeto a la Diversidad Cultural” em 2010, substituindo “Día de la Raza”. Segundo o governo argentino, a mudança buscou alinhar a comemoração ao reconhecimento da diversidade étnica e cultural e incentivar a reflexão histórica, o diálogo intercultural e o respeito aos povos originários. A justificativa aparece no próprio texto do Decreto 1584/2010 e em materiais explicativos do governo sobre a data.
Na Venezuela, o Decreto Presidencial nº 2.028, de 11 de outubro de 2002, estabeleceu o “Día de la Resistencia Indígena”. A denominação desloca o foco da chegada de Colombo para a resistência dos povos indígenas diante da colonização. O Ministério do Poder Popular para a Cultura venezuelano apresentou a mudança como uma forma de reconhecer as lutas indígenas e reivindicar suas histórias e culturas. O portal institucional da Assembleia Nacional da Venezuela é uma referência oficial para a consulta da legislação nacional.
Na Bolívia, o Decreto Supremo nº 1005, de 12 de outubro de 2011, declarou a data como “Día de la Descolonización”. O texto relaciona a decisão à descolonização do Estado e à implementação de políticas públicas nessa direção, incluindo a articulação com organizações representativas dos povos indígena originários campesinos. No Equador, o Decreto Executivo nº 910, também de 2011, instituiu o “Día de la Interculturalidad y Plurinacionalidad”, com o objetivo de reconhecer o significado histórico da data e promover o diálogo entre culturas e saberes, conforme a explicação institucional da Assembleia Nacional equatoriana. As duas denominações expressam caminhos distintos: na Bolívia, a ênfase está na descolonização; no Equador, no reconhecimento da pluralidade nacional e na interculturalidade.
A Colômbia acrescenta outra etapa a esse panorama. Em 2021, a Resolução 138 do Ministério da Cultura estabeleceu o 12 de Outubro como “Día de la Diversidad Étnica y Cultural de la Nación Colombiana”. Em 2024, a Lei 2.347 incorporou a denominação à legislação nacional e determinou que instituições públicas promovam ações para reconhecer e dar visibilidade, em condições de igualdade, às etnias e culturas presentes no país. Consulte também a comunicação oficial do Ministério da Cultura sobre a aprovação da lei. A sequência entre resolução e lei mostra como a mudança de nome também pode ser acompanhada por instrumentos institucionais específicos.
Esses exemplos não significam que toda a América Latina tenha adotado uma única interpretação da data, nem que a mudança oficial do nome, por si só, comprove transformações sociais. Eles mostram, de forma verificável, que governos passaram a enquadrar o 12 de Outubro por perspectivas diferentes, como diversidade cultural, resistência indígena, descolonização e interculturalidade. Para compreender o significado da data em cada mercado, é necessário observar a legislação, o debate público e as vozes locais, sem tratar a região como um bloco homogêneo.
Uma região, muitas histórias e identidades
A diversidade que aparece nessas denominações também está presente entre os próprios povos originários. Não existe uma única cultura indígena, mas centenas de povos, com histórias, territórios, línguas, organizações sociais e referências culturais próprias. No Brasil, por exemplo, os resultados do Censo Demográfico 2022 divulgados pelo IBGE identificaram 391 etnias, povos ou grupos indígenas e 295 línguas indígenas. Esses dados ajudam a dimensionar a diversidade existente dentro de um único país e reforçam por que representações genéricas podem apagar diferenças importantes. Os números podem ser consultados na página do IBGE sobre os povos indígenas no Brasil e na publicação do IBGE sobre as etnias e línguas indígenas identificadas no Censo 2022.
A linguagem faz parte desse reconhecimento. Línguas indígenas não são apenas meios de comunicação, mas também formas de transmitir conhecimentos, memórias e visões de mundo. A Década Internacional das Línguas Indígenas, proclamada pela ONU para o período de 2022 a 2032 e coordenada pela UNESCO, busca mobilizar esforços para preservar, revitalizar e promover essas línguas. Para a comunicação, isso significa entender que traduzir palavras não basta: é preciso considerar contexto, referências, significados e a forma como as próprias comunidades desejam ser identificadas. Mais informações estão disponíveis na página oficial da UNESCO sobre a Década Internacional das Línguas Indígenas.
Há iniciativas que permitem acompanhar essas narrativas diretamente. A Rádio Yandê, plataforma de comunicação indígena que reúne notícias, conteúdos culturais, entrevistas e produções em diferentes formatos, é um exemplo brasileiro de produção de conteúdo feita a partir de perspectivas indígenas. Consultar canais como esse não substitui o diálogo com representantes de cada povo, mas amplia o repertório de fontes e ajuda a evitar que as comunidades apareçam apenas como tema, sem participação na construção das histórias.
O que essa contextualização muda para a comunicação?
Para marcas que atuam em diferentes países da América Latina, as mudanças de denominação do 12 de Outubro são um exemplo concreto de por que estratégias regionais precisam partir do conhecimento local. Uma campanha desenvolvida para a Argentina, onde a data oficial destaca o respeito à diversidade cultural, não deve ser automaticamente replicada na Venezuela, onde o nome oficial enfatiza a resistência indígena, ou na Bolívia, onde a data é associada à descolonização. Os contextos legais e históricos oferecem pontos de partida diferentes para a escolha de mensagens, fontes, imagens e canais.
Na Sherlock Communications, esse conhecimento regional é parte central do nosso trabalho. Atuamos exclusivamente com organizações internacionais que operam na América Latina e contamos com escritórios nas seis maiores economias da região. Nossa equipe, formada por profissionais de diferentes países latino-americanos, apoia todo o processo de localização de campanhas, considerando as particularidades de cada mercado.
Nossa atuação inclui pesquisas de mercado, análise de tendências e estudos sobre hábitos de consumo de mídia e informação, que ajudam a orientar estratégias e decisões de comunicação adaptadas a cada contexto. Essa estrutura permite combinar uma visão regional com o conhecimento específico de cada mercado, sem presumir que uma mensagem terá o mesmo significado em todos os países.
Na prática, isso envolve identificar quais debates estão ativos em cada país, entender a terminologia adotada por instituições e comunidades, selecionar fontes locais qualificadas e escolher veículos e canais capazes de alcançar os públicos relevantes. Também significa reconhecer os limites da própria marca: quando uma comunicação aborda povos originários, a participação de representantes das comunidades e o respeito às suas formas de identificação devem fazer parte do processo, desde a pesquisa até a validação do conteúdo.
Esse cuidado não deve ficar restrito a uma data comemorativa. A comunicação responsável exige apuração, consulta a fontes pertinentes e atenção para não reproduzir estereótipos ou usar símbolos culturais sem compreender sua origem e seu significado. Sempre que uma afirmação sobre uma comunidade, uma tradição ou um impacto social for incluída em uma campanha, ela precisa ser sustentada por evidências confiáveis e, quando necessário, validada com pessoas que conheçam aquele contexto de perto.
Ressignificar para comunicar melhor
O 12 de Outubro mostra que as narrativas históricas podem ser revistas quando outras perspectivas ganham espaço. As diferentes denominações adotadas por países latino-americanos não são intercambiáveis: cada uma carrega uma escolha política e cultural específica. Conhecer essas diferenças é parte de uma comunicação que respeita a complexidade da região e evita transformar a América Latina em um único mercado ou os povos originários em um grupo uniforme.
A Sherlock Communications compreende essas particularidades, o que significa transformar conhecimento local em decisões concretas de comunicação. Escutar as fontes certas, contextualizar os fatos, escolher a linguagem adequada e reconhecer a diversidade de vozes são etapas essenciais para construir relações mais informadas e responsáveis entre marcas e públicos latino-americanos.
Autor: Claudio Anastácio Júnior