Quem diria que em quatro semanas é possível viver uma vida inteira? Como parte de um programa de intercâmbio profissional entre os escritórios da Sherlock Communications na América Latina, diretamente do Brasil, passei um mês trabalhando lado a lado com a nossa equipe em Bogotá. De imersão cultural à profissional, não houve um único dia na Colômbia em que eu não aprendesse algo. Ainda assim, o que mais guardei para mim foi a gentileza do povo colombiano.
A gentileza de mostrar um pouco da própria cultura e história com muito orgulho: das arepas ao ouro, da granadilla ao plátano maduro e verde; de Medellín a Bogotá; do centro histórico ao prédio do veículo de comunicação mais impactante do país, o El Tiempo. De todas as suas riquezas, a população foi a que mais me encantou.
E a verdade é que as pessoas são o pilar central da comunicação no país. Ao chegar em Bogotá, fui como profissional de Relações Públicas, mas, acima de tudo, como jornalista e curiosa — adotando um olhar quase antropológico para a experiência que viveria ali. Percebi que o país se divide fortemente por regiões e por estratos, de uma forma diferente do Brasil. Enquanto as regiões se dividem em frentes como a antioquena, a costeira e o caribe colombiano, os estratos socioeconômicos são um sistema oficial criado pelo governo (por meio da Lei 142 de 1994) para classificar os imóveis residenciais em uma escala de 1 a 6, com base na localização e nas características físicas da moradia e do bairro.
Na prática, percebi que essas diferenças regionais e socioeconômicas criam referências culturais, hábitos e contextos distintos que precisam ser profundamente considerados na comunicação. Para planejar uma campanha de PR relevante na Colômbia, é indispensável compreender esses marcadores sociais e saber dialogar com eles. Durante o período em que trabalhei com o time local, consegui mensurar o impacto dessas nuances no dia a dia do trabalho.
Logo na primeira semana — mais precisamente no meu primeiro dia de intercâmbio —, o país registrou o maior terremoto em uma década. Por dias, o abalo sísmico foi o tema central em todos os cantos do país. Junto com a equipe local, entendemos que era fundamental alinhar as estratégias ao momento do país, compreendendo que insistir em pautas totalmente desconectadas daquela situação emergencial poderia soar deslocado. Afinal, a comunicação só é efetiva quando respeita a realidade das pessoas.
Nesse cenário, identificamos a oportunidade de atuar com foco em prestação de serviço e análise de dados. Trabalhando em conjunto com um dos nossos clientes do setor de serviços financeiros e investimentos, desenvolvemos um estudo focado no impacto econômico do desastre. Como o mercado financeiro reage diretamente a instabilidades dessa magnitude, fazia todo o sentido trazer a perspectiva do setor para ajudar a imprensa e a população a entenderem o cenário pós-crise.
A análise mostrou que, além do custo humano e infraestrutural, o impacto financeiro era direto: o déficit fiscal do país, já projetado em cerca de 7% do PIB para 2026, poderia aumentar significativamente devido aos custos de reconstrução, estimados entre 20 e 40 trilhões em pesos colombianos (entre 1% e 2,2% do PIB, segundo cálculos do BTG Pactual, do Departamento Nacional de Planejamento e da Asocapitales). Com essa abordagem fundamentada, relevante e tempestiva, conseguimos posicionar a empresa em quase todos os veículos Tier 1 da Colômbia.
Essa vivência reforçou a importância estratégica de contar com equipes locais experientes, que dominam o cenário político, social e midiático de seu próprio país. Ao mesmo tempo, o intercâmbio permitiu uma rica troca de metodologias entre os escritórios: enquanto pude absorver a profunda leitura de contexto e agilidade do time colombiano, contribuí levando a bagagem do mercado brasileiro em estruturar e respaldar narrativas com dados e inteligência de mercado. Essa sinergia entre o conhecimento nativo e metodologias complementares de PR é o que transforma campanhas regionais em estratégias de alto impacto na América Latina.
Das experiências profissionais que levamos para toda a vida, essa foi, sem dúvida, uma das mais marcantes.